Sabe quando, naqueles filmes de humor, acontece algo muito incrível e todos se abraçam? O judeu e o árabe, o nerd e o popular, o preto e o red neck, o McDonalds e o Burger King? Enfim, para mim é essa cena que representa o natal.
Essa data mágica que não tem nenhum significado simbólico religioso para mim tem um sentido de catarse social, ao meu ver. Claro, acompanhado pelo novo ano. Tal como “vamos esquecer nossas diferenças, é natal!”
São Paulo fica com um cheiro de cidade semideserta; têm os que enchem a cara para esquecer e os que enchem a cara de esperanças. Sem querer, de repente, tem mais gente que o esperado botando um sorriso no rosto e também aqueles outros que acham tudo uma grande besteira e encaram como um dia normal. Du-vi-do! Até porque não é um dia normal. Tudo fecha.
As expectativas de que venha algo melhor são enormes, os votos de saúde e sorte acompanham as promoções e a ganância do comércio. A TV revela uma programação superespecial com os mesmos filmes desde 1990. Os papais Noel usam as mesmas roupas e os enfeites não variam desde o século XVIII.
São Paulo fica com um cheiro de cidade semideserta com sabor de tradicionalismo. As famílias percebem que as crianças já cresceram e chegaram outras para tomar o lugar, as frutas e comidas típicas do hemisfério norte se alojam dentro da casa de cada família cristã para que seja honrada a data mais importante do calendário; alguns esperam presentes e outros os dão.
O natal marca a ressaca de um ano inteiro e intenso de trabalho, um ano em que talvez as coisas não tenham sido como deveriam ser. O natal marca o juizo final de cada ano e vem acompanhado com uma culpa marcante da religião para que todos saibam que cada ganho tem uma promessa e cada promessa, por sua vez, é tributada por meio de dívidas conscientes.
Eu não comemoro o natal, mas não sou diferente. Ainda acredito em um cenário mais bonito para mim, meus amigos, familiares e para todo o Brasil. Espero e torço de verdade para que essa catarse social possa trazer resultados práticos não descartáveis, mesmo não sabendo o que isso significa e, por um lado, achando isso tudo uma grande ilusão.
A Cena do Filme em que Todos se Abraçam