por Natalia Kuschnaroff
É engraçado perceber que quase todo mundo que está a meu redor é bom. No sentido de pureza e bondade mesmo. Mais engraçado ainda é perceber o quanto eu não sou boa.
Eu sinto ciúme, sinto inveja, dou chilique, sinto raiva. Me sinto insegura, sinto medo por coisas banais, me autoboicoto, respondo atravessado, brigo com quem me ama, finjo não amar ninguém, cometo a gula, a preguiça e vários outros pecados capitais. Não tenho muita força de vontade, deixo muita coisa para a última hora, sou petulante, prepotente, arrogante, exigente. Tenho vergonha de dizer que não sei e dificuldade em dizer que errei.
Além disso, também têm muitas outras coisas mais que me fazem não ser uma pessoa boa.
Gente boa é quem encara a realidade com um grande sorriso e não fica puto com coisas mesquinhas; é quem tem a sabedoria de ultrapassar pequenos problemas banais do dia a dia e pensar no que realmente importa. É quem tem coragem de seguir adiante, nem que haja um grande muro na frente. É quem não sente medo de enfrentar e correr em busca de seus sonhos. Quem tem uma concepção bem resolvida sobre a pobreza, a política, a economia, o entretenimento e a cultura.
Gente boa não para nem um segundo do seu dia para reclamar. Eu reclamo várias vezes durante o dia. Gente boa não come mais doce do que deve porque sabe que o corpo precisa de equilíbrio. Eu como sorvete mesmo já de barriga cheia. Gente boa não faz papelão na frente dos outros porque não faz papelão nem entre quatro paredes. Eu briguei com a minha mãe numa loja e todo mundo olhou mesmo sem eu ter gritado. Gente boa não compra produtos além dos que vai precisar. Eu nem tenho noção do que tenho ou não tenho. Gente boa não precisa de Twitter para se sentir menos sozinha, porque gente boa não se sente sozinha.
Gente boa que é gente boa não sou eu. Pensando bem, prefiro continuar sendo uma pessoa ruim, já que é muito difícil ser alguém bom.
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